Gritos Mudos

 


Hoje vamos dar voz a uma coisa totalmente diferente até então. Chegou até nós um texto redigido manualmente, por um amigo do nosso Lourenço. Um texto que considerámos muito especial pois está escrito com o coração e com a razão de braços dados. Achámos por isso importante revelá-lo.


 

Gritos Mudos

 

“Olá, eu sou o Lourenço e, apesar dos meus pais dizerem que eu sou especial, o que eu sou só, afinal, é diferente.


Diferente porque nunca vou poder andar como os outros meninos que vejo na rua; diferente porque nunca me vou poder sentar como eles; diferente porque nunca vou poder dizer pai, mãe e, meu Deus, como isso os iria fazer sorrir…


 

Diferente porque vejo que este mundo não é feito a pensar em mim, nos meninos com dificuldades, mas sim nas pessoas ditas normais. Pessoas que desde que se levantam até que se deitam fazem coisas que nós, os diferentes, nunca poderemos fazer. E o pior é que estão tão dormentes que nem vêem a sorte que têm.


Será que se os passeios fossem mais largos e não utilizados como estacionamentos, não dariam para todos? Os normais e os diferentes? Será que os estabelecimentos com rampas e entradas largas não davam para todos? Será que as caixas multibanco um pouco mais abaixo já não davam para todos?


 

Mas, pensando bem, eu não sou só diferente mas sim azarado. Aliás, duplamente azarado pois, para além de ter tido a coragem de nascer diferente, ainda fui nascer num país como Portugal. Um país em que a grande maioria das pessoas anda adormecida. Não vêem, não reagem, não sentem, simplesmente vivem, ou melhor, sobrevivem. Curioso é, com a chegada do Natal, dar-se tanta importância à caridade, aos pobres e sem abrigo como se, no resto do ano, não existissem nem fome nem frio.


 

A minha mãe não pode trabalhar porque eu preciso dela 24 horas por dia. Ela com todo o seu amor vive para mim, mas como o meu pai ganha a fortuna de 500 euros/mês, não tem direito a qualquer subsídio, enquanto que qualquer janota esperto  do país consegue tudo, desde subsídios de reinserção, subsídios disto ou daquilo, prémios daqui ou dacolá.


 

Dizem que, talvez um dia, tenha direito à minha cadeirinha, que tanto iria melhorar a minha qualidade de vida… Agora quando? Nunca se sabe e sinceramente nem sei se ainda cá estarei na altura. Agora, carros topo de gama para os políticos, reformas milionárias e prémios chorudos para gestores, para aí já hão dinheiro.


 

Um dia ouvi um amigo dos meus pais citar Daila Lama aquando da sua resposta à questão: O que mais o surpreende na Humanidade? A sua resposta foi: “ Os Homens… Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.


E, se calhar é isso mesmo, eu sou diferente. Eu sei, os meus pais sabem e os meus amigos também. Mas eu estou vivo e vou lutar, porque sei que cada vez que eu sorrir, todos eles vão sorrir também.”


  

 

Isto é só um desabafo, um grito mudo, um pensamento que eu tenho. Se calhar, todos nós deveríamos de pensar um pouco no que podemos fazer para, todos juntos, melhorar-mos a vida de todos os “Lourenços” que existem. Se calhar, não custa nada!


 

Um abraço ao Movimento

Bem hajam.

Um amigo

 

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